EUA e China: a nova guerra fria?

O diálogo conturbado entre Donald Trump e Xi Jinping parece ter-se agravado com a crise da pandemia da COVID-19. A fase “é mais um prego no caixão das relações entre os EUA e a China”, comenta a jornalista Isabel Castro ao JPN.

Numa altura que ficará para a História como a maior pandemia da Era Contemporânea, as potências mundiais viram o seu foco para o estado de saúde das populações, mas sem nunca desviar o olhar dos jogos de poder. Os Estados Unidos da América (EUA) e a China protagonizam uma guerra de acusações há anos e, em pleno estado de emergência mundial, usam a COVID-19 como mais uma peça no tabuleiro.

“Esta fase é mais um prego no caixão das relações entre os EUA e a China”, diz Isabel Castro, jornalista na rádio, televisão e imprensa portuguesas de Macau durante 18 anos. “Estes países”, segundo a ex-diretora do jornal “Ponto Final”, “são liderados por dois homens com características muito especiais”. O que une Donald Trump e Xi Jinping é também o que os separa: a “ânsia de poder”, cada um pelo seu país.

Isabel Castro ajuda à caracterização dos líderes. De um lado, Xi Jinping, “um homem que decidiu concentrar o poder só nele e que provavelmente vai ultrapassar os dois mandatos previstos”, um líder com tiques de Mao Tsé-Tung governado pela ânsia de que a China se transforme na principal economia mundial. Do outro, Donald Trump, empresário herdeiro de milhões que “consegue ser mais caricatural que a sua própria caricatura” e cujos passos e declarações são cada vez mais imprevisíveis, porque “Trump é Trump”.

A jornalista comenta os “toma lá, dá cá” dos dois líderes com preocupação: “isto não é uma brincadeira de crianças e já todos percebemos isso”. O novo paradigma de pandemia que afetou populações e empregos veio agravar as tensões entre os dois países, maestros dos impactos da crise no mundo.

O novo coronavírus, reportado no último dia de 2019 pelas autoridades chinesas num mercado na cidade de Wuhan, espalhou-se desde então pela China e para o resto do mundo, incluindo o Norte da América. Mais de dois meses depois de o primeiro caso fora da China ter sido registado, o país tem apresentado uma regressão do vírus enquanto o resto do mundo ou enfrenta ou se prepara para enfrentar o pico dos casos do vírus pandémico.

Os EUA são o terceiro país com maior incidência da COVID-19 em número de casos confirmados, com mais de 69 mil pessoas infetadas e mais de mil mortes – números que têm aumentado de dia para dia. Em conferência de imprensa, o presidente norte-americano declarou não assumir responsabilidade pela resposta considerada fraca do país aos primeiros avanços da pandemia – ou “vírus chinês”, como Donald Trump insiste em apelidar a COVID-19.

Na mesma conferência de imprensa, quando questionado acerca da desintegração de uma comissão de combate a pandemias criado pelo anterior presidente Barack Obama, Trump cortou o microfone à repórter. E esta não foi a única vez nas últimas semanas que o presidente norte-americano condicionou jornalistas na Casa Branca.

Quem vai à guerra da comunicação social, dá e leva

Em fevereiro, a administração de Trump notificou as cinco agências de notícias chinesas com maior presença nos EUA – e frequência na Casa Branca – como operadores do Estado chinês, despindo-as dos direitos à liberdade de expressão e atribuindo-lhes as mesmas regras que os diplomatas chineses no país.

No dia seguinte, em aparente jeito de resposta, a China cancelou os vistos de três jornalistas do jornal americano “The Wall Street Journal” instalados em Pequim. Segundo o Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, a reação veio repreender o jornal económico por um artigo de opinião publicado a 3 de fevereiro entitulado “A China é o Verdadeiro Homem Doente da Ásia”.

O colunista que analisou o impacto da COVID-19 na economia chinesa fez no título uma referência a um período negro na história da China – uma crise política e económica na viragem para o século XX que culminou nas invasões japonesas na Segunda Guerra Mundial. “Os mercados financeiros da China podem ser ainda mais perigosos que os seus mercados de animais vivos”, lê-se no artigo.

O trocadilho não caiu bem ao governo chinês nem aos correspondentes americanos do jornal expulsos do país, que mais tarde assinaram uma carta com outras 50 rubricas da equipa de informação do “The Wall Street Journal” – de coordenação independente da equipa de opinião que publicou o artigo – a apelar à substituição do título “depreciativo” e a um pedido de desculpas por parte do jornal.

O chefe de redação do departamento do jornal na China foi o remetente da carta que não assinou, apesar de alertar, em nota, que “uma resolução indicada para este assunto é essencial para o futuro da nossa presença na China”. Com a expulsão dos correspondentes do Wall Street Journal duas semanas depois, a declaração do editor foi premonitória.

Já em março, os EUA renovaram a retaliação ao limitar o número de correspondentes dos cinco meios de comunicação chineses no país para 100, forçando estes media, antes com 160 repórteres em terreno americano, a enviar seis dezenas de trabalhadores de volta à China. Jornalistas internacionais normalmente obtêm um visto de trabalho de apenas um ano.

E, como já seria de esperar, a China respondeu: desta vez, na semana passada, anunciou a não-renovação de visto de trabalho de jornalistas do “New York Times“, do “Washington Post” e do “The Wall Street Journal“, ordenando que teriam que entregar as credenciais de repórteres num prazo de dez dias.

Esta dúzia de repórteres sediados na China foi também impedida de exercer funções nas regiões administrativas especiais de Hong Kong e Macau. Segundo a jornalista Isabel Castro, “em termos constitucionais, a China não tem poder para restringir a atividade jornalística lá”. O país “escuda-se com o facto de não haver independência diplomática” nestas regiões, diz a jornalista anteriormente sediada em Macau.

Um relatório divulgado este mês pelo Clube dos Correspondentes Estrangeiros na China revela que “as autoridades chinesas estão a usar os vistos como armas contra a imprensa estrangeira”, situação estratégica do plano de ataque da China ao domínio mundial.

Numa realidade como a chinesa, “a comunicação social ser abafada é algo normal”, admite Isabel Castro. “A China diz que o pior já passou. Não sabemos. A liberdade de expressão está na Constituição [chinesa], mas não é respeitada e isso é um facto que fez com que provavelmente o vírus não pudesse ter sido restringido numa fase inicial”, lamenta a jornalista.

Esta terça-feira (24), jornalistas dos três jornais americanos que perderam parte da sua representação na China assinaram em conjunto uma carta aberta ao governo asiático onde se assumem como “um dano colateral de uma disputa diplomática entre os governos que ameaçam privar o mundo de informação vital numa fase precária”.

“Infantilidade e irresponsabilidade” nos líderes mundiais

De facto, a comunicação social foi mais um motivo para os dois líderes mundiais se porem em xeque. Para Isabel Castro, “nesta relação entre Trump e Xi Jinping não há ideologia nem política; há economia, há dinheiro e é pelo dinheiro que estas duas forças se regem”.

E dinheiro é poder. Parte da Iniciativa Chinesa “Uma Faixa, Uma Rota” – um reavivar da Rota da Seda que concedeu ao país domínio mundial – está a ser mobilizada para a ajuda médica à pandemia pela COVID-19. Se há semanas era a China que aceitava ajuda humanitária para tentar conter o vírus na província de Wuhan, agora é a China que, quase recuperada, envia máscaras e equipamento médico para países como Itália, Espanha, Perú, Iraque e Japão.

O diretor da Iniciativa Chinesa no Instituto de Brookings em Washington, Rush Doshi, comentou que “esta poderá ser a primeira grande crise mundial em décadas sem uma liderança americana relevante e, por sua vez, uma liderança chinesa significante”.

A China tem mais motivações para esta ajuda humanitária mundial que apenas a ajuda humanitária mundial. Ganhar a disputa com os EUA é uma delas e atacar a comunicação social foi apenas uma das estratégias. Se Trump apelida o novo coronavírus de “vírus chinês”, a China tem oficiais do Estado a alimentar teorias de que foi o exército americano a implementar o vírus nos mercados chineses.

Nos EUA, “a maior parte da população achará que isto é culpa da China ou da Europa”, mas, para Isabel Castro, “Trump não pode ser ilibado pela China” com as inúmeras golpadas que o presidente americano protagonizou durante o seu mandato. “A economia dos EUA é o que o tem conseguido manter ileso” até ao momento, mas, em ano de eleições, o comportamento de Donald Trump perante a pandemia pode custar-lhe a reeleição.

Para Isabel Castro, “adultos com as duas principais economias do mundo a trocar acusações nesta fase do campeonato é de uma grande infantilidade e irresponsabilidade de ambas as partes”. No jogo de culpas pelo coronavírus, nem Donald Trump nem Xi Jinping querem ou vão assumir responsabilidade pela pandemia, explica a jornalista.

Se é certo que a China deveria assumir grande responsabilidade pela resposta tardia a um surto que ocorreu durante o Ano Novo Chinês – a maior migração humana no planeta com três milhões de pessoas em movimento – também é certo que a cultura chinesa não permite que Governo a assuma.

Uma condicionante cultural

“Perder a face”, isto é, assumir uma falha e pagar a devida dívida, como adianta Isabel Castro, é para a cultura chinesa quase pior que perder a vida. “O chinês é muito mais pragmático que filosófico e, perante o contexto atual, tendem a dar a volta ao texto para trabalhar e produzir, atacando os problemas de forma muito pragmática”.

Com uma cultura contida e uma imprensa calada, à população chinesa não sobra grande margem para ouvir o mundo exterior nem para se fazer ouvir. Mas “esta foi a primeira vez, pelo menos nos últimos 20 anos, que um acontecimento social teve uma reação tão grande pela população chinesa”, revela Isabel Castro.

“Desta vez, o facto de ter havido médicos que vieram falar sobre o assunto”, ainda que tivessem sido calados – muitos alegadamente desaparecidos – “causou reações muito visíveis nas redes sociais” controladas pelo Estado. Foram o “suficiente para chegar cá fora e para se perceber que desta vez uma parte da população se indignou com a forma como Pequim exerce o poder”, explica a jornalista sediada em Macau há duas décadas.

Apesar desta indignação social palpável, Isabel Castro considera que se, por um lado, este é um “sinal claro” de uma mudança de perceção do governo de Xi Jinping pelos chineses – e que “poderá vir a ser um problema para o regime a médio prazo -, “não é o coronavírus que vai mudar o regime político na China”, admite a jornalista.

Da super-globalização à super-dependência

Esta crise veio provar a grande dependência dos países do mundo em relação à China, em consequência da fraca autonomia desses mesmos países em termos de capacidade de produção.

“A China é há já muito tempo a fábrica do mundo”, considera Isabel Castro, e “portanto estamos todos muito nas mãos do modo como a China irá reagir com os países que precisam dela” no combate à COVID-19. “O mundo depois disto não será o mesmo mundo que conhecemos até ao final de 2019″, reflete a jornalista.

Se por um lado a super globalização do século XXI permite a interajuda e responsabilização internacional, por outro, em situações como uma pandemia, traz à tona a má gestão individual dos países. “Alguma autonomia seria desejável para ser possível responder a estas situações críticas, principalmente quando é a China que domina o mercado farmacêutico”, alerta Isabel Castro.

A jornalista não se admite “particularmente otimista” com o que o mundo espera depois desta crise e, no que toca à economia, considera que tanto a China como os EUA têm que “deixar as politiquices e passar para uma política real e concreta que permita às duas potências encontrarem a solução para os problemas que os vão afetar a ambos” e a todo o mundo – porque “isto deixou de ser um problema da China, de Itália ou de Espanha. Isto é um problema de toda a gente”, diz Isabel Castro.

Sendo um problema do mundo nesta altura do campeonato, “o mundo vai ter que se desenrascar e isso vai passar muito pela relação que existe com a China e que vai continuar a haver” daqui para a frente, explicita a jornalista.

Num panorama onde os dois líderes dizem quase mais pelo mundo que pelos seus países, falta a Donald Trump e a Xi Jinping “juízo, sentido de humanidade, lógica e pragmatismo para agir no que é importante, que é a pandemia ser controlada”, diz Isabel Castro.

Uma nova Guerra Fria?

Para Isabel Castro, a razão para crescente disputa entre Donald Trump e Xi Jinping pela influência mundial é simples: “os EUA dependem da China e a China dos EUA” e “não há um caminho de entendimento que neste momento seria urgente existir”.

Nem para o controlo da pandemia os dois países parecem aceitar uma colaboração: a corrida pela criação de uma vacina está a ser liderada por várias frentes em todo o mundo incluindo a China e os EUA no que mais parece uma corrida por quem a tem primeiro que pela vacina em si.

Na semana passada, cientistas militares chineses foram autorizados a avançar com testes clínicos da vacina para o novo coronavírus. Segundo o “South China Morning Post”, um especialista admitiu que se os laboratórios chineses perdessem a corrida para a vacina para os EUA, seria uma “perda de face”.

Ao mesmo tempo, nos EUA, foram recrutados 45 voluntários saudáveis que já terão sido injetados com uma vacina que contém material genético similar ao vírus que provoca a COVID-19.

A meio da pandemia, o mundo está em tumulto por uma crise de saúde que levará quase certamente a uma profunda crise económica. Mas, por mais agravada que a situação seja dia após dia, ainda é cedo para previsões. Isabel Castro corrobora: “o que vai acontecer? Não sei. Nós estamos a viver dias impossíveis de imaginar há um ano ou mesmo há meses. É muito difícil perceber o que será o mundo daqui a um mês”, reflete a jornalista.

Se já não eram pacíficas, as relações entre os EUA e a China parecem atingir um novo patamar de ações e reações perante a crise da COVID-19, um possível início conturbado para uma nova guerra fria entre as duas potências mundiais. “As relações não vão sair mais reforçadas desta crise, antes pelo contrário”, diz Isabel Castro. “Mas, nesta altura, convinha que o mundo inteiro estivesse alinhado”.

Fonte: https://jpn.up.pt

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